sábado, 27 de outubro de 2012

São Gonçalo e os Prefeitáveis 

ou
A Ilusão de Fasltaff

O debate na OAB no último dia 22, entre Neilton Mulim e Adolfo Konder, candidatos a prefeito de São Gonçalo, evidenciou que o segundo turno fez muito bem a nossa cidade e que teria sido mesmo uma imoralidade cívica qualquer um dos candidatos ter ganho esta eleição em primeiro turno; São Gonçalo não poderia ter se dado a este luxo, e com a nova oportunidade de aprofundar algumas questões, viu, de modo geral, sua vida política e social sair fortalecida com o evento.


Se não chegou a ser um debate histórico, fundamental, é verdade que a análise do encontro não pode se restringir totalmente a considerações gerais; houve pelo menos um momento de real destaque, com um tom um pouco mais arrojado para as reais necessidades políticas da cidade. Ao responder o questionamento de Konder a respeito de suas parcerias para o segundo turno, Neilton demonstrou ao menos que pode vir realmente a despertar para o novo paradigma de posicionamento que a população gonçalense precisa assumir, e que já vem sendo, ainda que bem inicialmente, cogitado por alguns outros setores de nossa sociedade.  

A Carnavália em São Gonçalo -  2005 - Mário Candido
 Pintura  do Acervo Bandeiras SG.
Em resumo, Neilton afirma que sua maior parceria foi com o povo gonçalense e não com personalidades políticas de destaque na vida brasileira; que a partir de janeiro de 2013, independente de quem seja o prefeito, os governos estaduais e federais apresentarão toda sua dignidade, responsabilidade e maturidade, tratando nossa cidade com o destaque que ela merece em função de ser a décima quarta em população no país.

Mas nada é tão maravilhoso assim. A pergunta de Adolfo - perfeita para que ele, no momento da réplica, fizesse a sua ladainha sobre suas parcerias - e a resposta de Neilton demonstram a visão dos dois sobre o povo gonçalense, sendo uma a visão do conformismo e a outra a da situação que ainda não é tão natural quanto quer parecer. De positivo, ambas oportunizam os gonçalenses a se questionarem sobre que papel querem desempenhar daqui para frente. 

As opções são o papel que se expressa no falacioso, ingênuo e pretensioso discurso de Adolfo ao se apresentar como detentor de privilégios por uma aproximação especial com os governos estadual e federal, ou o papel de ter que aprofundar mais nos motivos pelos quais a cidade de São Gonçalo jamais contou com a dignidade e a responsabilidade dessas esferas, como quer Neilton. Afinal, por que o preconizado por Mulim já não é uma realidade, se São Gonçalo já tem uma grande população há muito tempo e sempre foi fundamental nas eleições para governador? Isso faz com que sua ideia não possa ser encarada como naturalmente verdadeira, ainda que seja a que devemos fazer acontecer através do reconhecimento da necessidade dessa verdadeira pauta política.


Tanto na esperança de grandeza expressa por Neilton quanto na falácia de que "somos todos iguais essa noite" expressa por Adolfo, aquela pauta política será, sim, muito necessária para uma real transformação da cidade, senão, ficaremos na mesma. E os dois candidatos, a partir de seus pontos de vista, precisariam de muita firmeza no estabelecimento daquela pauta. 

A diferença é que, no caso de Adolfo, ele já assumiu uma posição submissa demais, altamente desnecessária, e parece mais distante disso. Os dois candidatos deveriam ter consciência de que nada garante que São Gonçalo não voltará a ser tratada como sempre, cumprindo um papel de especial provedora de votos para o Governo do Estado, sendo esquecida em seguida. 



O que Adolfo está fazendo é nos conclamar a sermos pacíficos demais, resignados e ordeiros e assim, com a ajuda e a misericórdia dos que se dignaram a olhar esta terra de uma hora para outra, entrarmos nesta onda desenvolvimentista, a mesma que já não é mais um conceito tão absoluto como há algum tempo atrás. Momento, aliás, muito especial para que reflitamos sobre qual modelo de desenvolvimento queremos; temos chance disso, pois estamos praticamente saindo do osso. São Gonçalo é praticamente um grande caso de Friches Urbaines.

Fórum Velho - São Gonçalo

Essa pauta política, da qual Adolfo se afasta, chamando-a de picuinha, como faz Eduardo Paes, também ingênua e pretensiosamente, no Rio, nos é altamente necessária, pois precisamos desaprender algumas lições. Quem nos ensinou a andar de cabeça baixa? Quem nos ensinou a receber candidatos a governador do estado ávidos por votos, que depois de eleitos portaram-se sempre como segundos (ou primeiros) prefeitos da cidade do Rio de janeiro, sem nada ou quase nada reivindicarmos? 

Toda essa situação precisa mudar e podemos começar com a certeza de que a política de São Gonçalo não é a mesma que a do Rio, portanto o discurso de Adolfo de que um possível posicionamento mais exigente representa um racha, não convence a quem conhece de verdade esta cidade. É preciso inaugurar de modo mais firme um tempo de consciência do valor que este povo tem. Não podemos acreditar na propaganda de que basta ficarmos tranquilos, sem refletir e sem se posicionar porque somos amigo do rei ou do príncipe.


No filme Falstaff, de Orson Welles, o jovem príncipe vivia na companhia de fasltaff - um plebeu. Quando chegou o momento de assumir o trono da Inglaterra, lembrou-se que era Henry IV e percebeu que aquela companhia não ficava bem para um rei. E foi assim que Fasltaff morreu sozinho e pobre. 


Mário Candido

sábado, 22 de setembro de 2012

Por uma vida civil em São Gonçalo


Como afirma Paulo Sérgio Pinheiro, sociedade civil é um conceito cada vez mais usado na teoria política contemporânea, embora ainda permaneça bastante obscuro. Some-se a isso o fato de que hoje sua  conceituação não é apenas diversa, mas também contraditória, alimentada por um processo de mudanças que ocorreu em sua definição ao longo do tempo. 

Para que se tenha uma ideia do nível de contradição, basta observar que a noção de sociedade civil nasceu como sinônimo do próprio Estado, em oposição ao "estado de natureza". Seria, pois, o reino do que era legal, civil, civilizado, frente a natureza libertária. Demonstrando uma  preocupação com esses aspectos que precisavam ser renegados através de um pacto, Rousseau lembrava que "o acordo entre os animais é natural. O acordo entre os homens é artificial". Era preciso, então, criar esse artifício.

Hoje, apesar de haver algumas variações entre as quatro correntes mais influentes, toma-se  basicamente o conceito de sociedade civil como aquilo que não é o Estado, sendo o contrário deste. 

Mas o que nos interessa diretamente aqui, quando pretendo demonstrar a necessidade de que haja um fortalecimento, quiçá uma inauguração de uma vida civil em São Gonçalo, diz respeito a avaliar até que ponto as nossas organizações realmente se diferenciam da noção de Estado; até que ponto conseguem produzir valores e conteúdos civis que não se remetam diretamente àquele ou a uma velada vontade de se transformar no mesmo. 

É inegável que em São Gonçalo, devido a fraca vida civil, a prefeitura tenha um poder centralizador e um destaque demasiado, mesmo em sua profunda e histórica inoperância na organização de nossa sociedade geopolítica. Assim como o cidadão é convocado a participar de sua própria vida pública apenas quando a mesma deseja ou nos encontros marcados, como nesse momento de campanhas eleitorais; e todo este quadro acaba exercendo um grande poder de atração. Ainda que seja comum dizer-se o mesmo sobre toda a sociedade brasileira, é certo que aqui em nossa cidade estejamos em uma maior defasagem no nível de real participação. 

Os mais exaltados militantes costumam discordar dessa falta que aponto, dizendo que seus partidos, sim, discutem e produzem ideias sobre São Gonçalo. Mas, ora, se isso não é divulgado, se não é transformado em material que reproduza novas e constantes discussões sobre a cidade em outros meios que não o do próprio partido ou afins, não tem validade alguma. E, na verdade, a questão está longe de se resumir a partidos políticos, que merecem um estudo à parte, pois são tão somente uma parte e, quase sempre, reproduzem um comportamento estatal. 

Até que ponto partidos em São Gonçalo tem consciência de que muitas vezes é imperativo dar voz e vez às inciativas de cidadãos que não comungam com suas visões partidas, como real contribuição a democracia? Até que ponto admitem que realmente exista uma vida muitas vezes mais interessante fora de seus quadros? Neste aspecto, o que denuncio é que existe em São Gonçalo, como traço cultural, um pensamento-matriz estatal e não um pensamento-matriz civil que a tudo permeia. A Prefeitura, por exemplo, já demonstrou que mal considera que existam iniciativas que possam ser reconhecidas se não nascem de seus quadros ou de alguma instituição civil que esteja em profundo conluio consigo.  

Daqui, de toda e qualquer forma, continuo a pensar em uma vida realmente civil para São Gonçalo. Que se crie uma visão crítica sobre o tema e que se produza realmente valores um pouco mais independentes, ainda que se reconheça o valor do estado, cobrando que este realmente faça a sua parte. 

Mário Candido 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O homem não tem nenhuma experiência direta com nada; tudo é sempre mediado pelo simbólico. Se isso é válido na individualidade, coletivamente ocorre o mesmo. 

Tratando-se da identidade de uma unidade geopolítica - seja em que nível for- o que falta, por exemplo, a cidade de São Gonçalo é uma produção consciente de aspectos simbólicos sobre si mesma que possa mediar o seu estar no mundo; nenhum lugar consegue fugir dessa exigência, ainda mais uma cidade com suas dimensões e com uma população acima de 1milhão de pessoas.  

A arte e a cultura são as melhores maneiras, se não as únicas, de se construir esse processo. Pode haver crescimento de várias ordens em São Gonçalo, mas enquanto não houver uma apropriação da cidade pelo aspecto simbólico, nada mudará realmente. Este lugar está vago; não são políticos ou administradores que tem condições de realizar isso.

Nesse sentido, a afirmação de que a população precisa sinalizar para a classe politica desenvolver, não procede. Nós não estamos aqui para avisar, estamos aqui para realizar.

Objeto1- Colagem e pintura s/cadeira - 2010- Mário Candido
Mário Candido