São Gonçalo e os Prefeitáveis
ou
A Ilusão de Fasltaff
O debate na OAB no último dia 22, entre Neilton Mulim e Adolfo Konder, candidatos a prefeito de São Gonçalo, evidenciou que o segundo turno fez muito bem a nossa cidade e que teria sido mesmo uma imoralidade cívica qualquer um dos candidatos ter ganho esta eleição em primeiro turno; São Gonçalo não poderia ter se dado a este luxo, e com a nova oportunidade de aprofundar algumas questões, viu, de modo geral, sua vida política e social sair fortalecida com o evento.
| A Carnavália em São Gonçalo - 2005 - Mário Candido Pintura do Acervo Bandeiras SG. |
Mas nada é tão maravilhoso assim. A pergunta de Adolfo - perfeita para que ele, no momento da réplica, fizesse a sua ladainha sobre suas parcerias - e a resposta de Neilton demonstram a visão dos dois sobre o povo gonçalense, sendo uma a visão do conformismo e a outra a da situação que ainda não é tão natural quanto quer parecer. De positivo, ambas oportunizam os gonçalenses a se questionarem sobre que papel querem desempenhar daqui para frente.
As opções são o papel que se expressa no falacioso, ingênuo e pretensioso discurso de Adolfo ao se apresentar como detentor de privilégios por uma aproximação especial com os governos estadual e federal, ou o papel de ter que aprofundar mais nos motivos pelos quais a cidade de São Gonçalo jamais contou com a dignidade e a responsabilidade dessas esferas, como quer Neilton. Afinal, por que o preconizado por Mulim já não é uma realidade, se São Gonçalo já tem uma grande população há muito tempo e sempre foi fundamental nas eleições para governador? Isso faz com que sua ideia não possa ser encarada como naturalmente verdadeira, ainda que seja a que devemos fazer acontecer através do reconhecimento da necessidade dessa verdadeira pauta política.
Tanto na esperança de grandeza expressa por Neilton quanto na falácia de que "somos todos iguais essa noite" expressa por Adolfo, aquela pauta política será, sim, muito necessária para uma real transformação da cidade, senão, ficaremos na mesma. E os dois candidatos, a partir de seus pontos de vista, precisariam de muita firmeza no estabelecimento daquela pauta.
Tanto na esperança de grandeza expressa por Neilton quanto na falácia de que "somos todos iguais essa noite" expressa por Adolfo, aquela pauta política será, sim, muito necessária para uma real transformação da cidade, senão, ficaremos na mesma. E os dois candidatos, a partir de seus pontos de vista, precisariam de muita firmeza no estabelecimento daquela pauta.
A diferença é que, no caso de Adolfo, ele já assumiu uma posição submissa demais, altamente desnecessária, e parece mais distante disso. Os dois candidatos deveriam ter consciência de que nada garante que São Gonçalo não voltará a ser tratada como sempre, cumprindo um papel de especial provedora de votos para o Governo do Estado, sendo esquecida em seguida.
O que Adolfo está fazendo é nos conclamar a sermos pacíficos demais, resignados e ordeiros e assim, com a ajuda e a misericórdia dos que se dignaram a olhar esta terra de uma hora para outra, entrarmos nesta onda desenvolvimentista, a mesma que já não é mais um conceito tão absoluto como há algum tempo atrás. Momento, aliás, muito especial para que reflitamos sobre qual modelo de desenvolvimento queremos; temos chance disso, pois estamos praticamente saindo do osso. São Gonçalo é praticamente um grande caso de Friches Urbaines.
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| Fórum Velho - São Gonçalo |
Essa pauta política, da qual Adolfo se afasta, chamando-a de picuinha, como faz Eduardo Paes, também ingênua e pretensiosamente, no Rio, nos é altamente necessária, pois precisamos desaprender algumas lições. Quem nos ensinou a andar de cabeça baixa? Quem nos ensinou a receber candidatos a governador do estado ávidos por votos, que depois de eleitos portaram-se sempre como segundos (ou primeiros) prefeitos da cidade do Rio de janeiro, sem nada ou quase nada reivindicarmos?
Toda essa situação precisa mudar e podemos começar com a certeza de que a política de São Gonçalo não é a mesma que a do Rio, portanto o discurso de Adolfo de que um possível posicionamento mais exigente representa um racha, não convence a quem conhece de verdade esta cidade. É preciso inaugurar de modo mais firme um tempo de consciência do valor que este povo tem. Não podemos acreditar na propaganda de que basta ficarmos tranquilos, sem refletir e sem se posicionar porque somos amigo do rei ou do príncipe.
No filme Falstaff, de Orson Welles, o jovem príncipe vivia na companhia de fasltaff - um plebeu. Quando chegou o momento de assumir o trono da Inglaterra, lembrou-se que era Henry IV e percebeu que aquela companhia não ficava bem para um rei. E foi assim que Fasltaff morreu sozinho e pobre.
Mário Candido









