POLÍTICA

 Estética Política




Em uma entrevista que compõe a mostra Gil70, presente no centro cultural dos Correios, no Centro do Rio, até 28 de outubro, Gilberto Gil afirma que progressivamente a política tem sofrido um processo de estetização; saindo de um campo restrito e se amalgamando com outros aspectos da nossa vida. Assim tem atraído outros tipos de pessoas, não apenas o típico político. 

Afirmação interessante e que aqui nos importa no sentido de que por vários modos conforma a tendência que eu já havia aberto para este blog, de tratar largamente de aspectos políticos - destacando a cidade de São Gonçalo -, apesar de apresentá-lo em sua natureza de uma página de artes visuais.

Gilberto Gil na Expos. GIL70 - foto de Monique Caldas - ASCOM/Correios

É evidente que a questão da estetização da política é algo bem mais abrangente, mas de qualquer maneira identifico um braço que desemboca na postura desta página de não tratar das questões artísticos/culturais em nossa cidade sem sincronizar com a árida política e a dispersiva estética que nela são praticadas.

É emergencial que comecemos entendendo ou que reflitamos que justo por falta de uma noção estética e por uma falta de significação simbólica que ainda sequer transformamos nossas mazelas cotidianas em verdadeiras questões, em verdadeiros problemas. E está claro que a tremenda dificuldade no campo da arte e da cultura, portanto da política e da sociedade, em São Gonçalo não poderá ser combatida sem que sejam abordados esses aspectos. Nesse sentido, arte e cultura não são os enfeites, os complementos, mas o que fundamenta.

INTERFERÊNCIA- arte digital -2012 - Mário Candido


A imaturidade neste campo (como em outros) em nossa cidade é tão flagrante que derruba de imediato a análise de que nos falta apenas meio de mostrar nossa produção; isso é um erro e faz parte do ufanismo absurdo de alguns e da corrosiva hipocrisia de outros. Na realidade, a produção cultural e artística em nosso município, com pouquíssimas exceções, é algo pífio e não ultrapassa o mero reproduzir de tendências, sem contribuir com uma reflexão mais arrojada para o panorama da arte e de toda trama social. 

Precisamos olhar sem fingimentos para nossa própria face e rebuscar os motivos de nossa conformação. Não pensar apenas em administrações públicas não é uma forma de retirar-lhes a responsabilidade, mas tirar-lhes a primazia, mesmo que esta esteja na falta, mesmo que seja na inoperância. Sejamos sérios; cidade que quer cultura, faz cultura.

Uma cidade precisa ter produção de ideias e, sobretudo, a respeito de si mesma. É o que em verdade a sustenta, sobretudo na época das vacas magras. Basta olhar o exemplo da cidade do Rio de Janeiro. Alguns cariocas recorrem ou aceitam constantemente justificativas estéticas, históricas, políticas e até divinas para continuar reafirmando a importância de sua cidade permanecer como um paraíso de privilégios no estado, enquanto o grande Rio sofre, como sempre sofreu, com o descaso. 

Será impossível pensarmos em desenvolvimento social, artístico, cultural e político para São Gonçalo sem abordar com coragem estes temas que extrapolam em importância, oportunamente, a escolha deste ou daquele nome para prefeito da cidade. 

Mário César Candido Vieira

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