Noiva Cadáver
Pintura Ainda
É fato que no mundo da arte a pintura continua despertando interesse de quem deseja se iniciar no meio artístico. Entretanto, estar e permanecer nessa atividade não tem sido tarefa muito fácil. Se de um lado a sua logística é das mais simples e a muitos encoraja, as exigências entorno de suas questões acaba por realizar uma inevitável seleção das realizações vistas como realmente significativas, enquanto muitas são relegadas ao domínio das práticas particulares que não ultrapassam o gosto pessoal e não se afirmam.
Outro ponto do mesmo aspecto é que a pintura realmente não tem tido muito destaque dentro do circuito cultural dos grandes centros e, nesse sentido, é impossível não concordar que isso também se deve à constatação de que há muito tempo pintar passou a ser um problema quase ético, superando em muito as questões estéticas e poéticas.
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| Branco 462 e Branco 2430 - Daniel Senise - 2011 |
Contudo, se a possível impertinência da atividade pictórica é de fato relevante do ponto de vista crítico, não há como esquecer que a pintura vem ao longo desses anos sempre superando os diversos anúncios de suas mortes, e o modo significativo dessa ação passa muito ao largo da ideia de propor alguma forma de resgate de essências ou importâncias históricas. No entendimento de alguns teóricos, críticos e pintores, pintar hoje significa o reconhecimento de quão instigante é poder expandir as possibilidades de uma atividade que insiste em nos mostrar os seus limites. O pintor brasileiro Luiz Zerbini chega mesmo a dizer que ele lida com a pintura, entendendo-a como um fantasma, um ser morto que ele não faz nenhuma questão de ressuscitar.
Se conseguimos compreender e aceitar que a pintura tenha realmente morrido, é preciso compreender igualmente que a há muitos fatores nesse fenômeno. Um deles, uma espécie de síntese dos diversos motivos, diz respeito a incômoda sensação de que tudo foi feito, chegando-se à quase total dissolução das possibilidades do plano, o que sempre se quis que funcionasse como um beco sem saída. E o público, apesar de não participar desse debate, não permanece alheio a essa impressão, não demonstrando muita disposição ou interesse por exposições de novos pintores, enquanto não se importa de demorar horas em filas intermináveis para ver as obras que se consagraram e que se impõem historicamente não apenas com o peso do passado, mas, sobretudo, com o direito que adquiriram de abolir o tempo.
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| Concepto Espacial Espera, Tela rasgada sobre tela - Lucio Fontana - 1959 |
Naquele sentindo, as grandes obras acabam funcionando como um grande buraco negro que retira do pintor de fim de semana, daqueles sem grandes pretensões e dos que pretendem uma significação cultural e artística para sua "obra" as possibilidades de seguir os mesmos caminhos sem cair no vazio.
Há muitas alternativas para se sair desse impasse. Duas delas são pares perfeitos e extremos. Uma diz respeito a fingir que nada disso importa e seguir pintando como se fosse um debutante nas cavernas, o que pode não garantir a sua inserção no círculo dos grandes e realmente importantes e fundamentais criadores, conduzindo-o muitas vezes ao reino do despeito. A outra, é descobrir e avaliar os encantos da funesta e arregimentar os meios de com seus trapos, ruínas e incoerências estabelecer um diálogo corajoso com todas as suas impossibilidades e se possibilitar como pintor, que, assim, jamais terá motivos para esconder o garbo de realizar um grande e belo desfile de mãos dadas com sua bela noiva cadáver em uma ensolarada tarde de domingo.
























