quinta-feira, 17 de março de 2016

Noiva Cadáver 
Pintura Ainda


É fato que no mundo da arte a pintura continua despertando interesse de quem deseja se iniciar no meio artístico. Entretanto, estar e permanecer nessa atividade não tem sido tarefa muito fácil. Se de um lado a sua logística é das mais simples e a muitos encoraja, as exigências entorno de suas questões acaba por realizar uma inevitável seleção das realizações vistas como realmente significativas, enquanto muitas são relegadas ao domínio das práticas particulares que não ultrapassam o gosto pessoal e não se afirmam.

Outro ponto do mesmo aspecto é que a pintura realmente não tem tido muito destaque dentro do circuito cultural dos grandes centros e, nesse sentido, é impossível não concordar que isso também se deve à constatação de que há muito tempo pintar passou a ser um problema quase ético, superando em muito as questões estéticas e poéticas.

Branco 462 e Branco 2430 - Daniel Senise - 2011

Contudo, se a possível impertinência da atividade pictórica é de fato relevante do ponto de vista crítico, não há como esquecer que a pintura vem ao longo desses anos sempre superando os diversos anúncios de suas mortes, e o modo significativo dessa ação passa muito ao largo da ideia de propor alguma forma de resgate de essências ou importâncias históricas. No entendimento de alguns teóricos, críticos e pintores, pintar hoje significa o reconhecimento de quão instigante é poder expandir as possibilidades de uma atividade que insiste em nos mostrar os seus limites. O pintor brasileiro Luiz Zerbini chega mesmo a dizer que ele lida com a pintura, entendendo-a como um fantasma, um ser morto que ele não faz nenhuma questão de ressuscitar.

Se conseguimos compreender e aceitar que a pintura tenha realmente morrido, é preciso compreender igualmente que a há muitos fatores nesse fenômeno. Um deles, uma espécie de síntese dos diversos motivos, diz respeito a incômoda sensação de que tudo foi feito, chegando-se à quase total dissolução das possibilidades do plano, o que sempre se quis que funcionasse como um beco sem saída. E o público, apesar de não participar desse debate, não permanece alheio a essa impressão, não demonstrando muita disposição ou interesse por exposições de novos pintores, enquanto não se importa de demorar horas em filas intermináveis para ver as obras que se consagraram e que se impõem historicamente não apenas com o peso do passado, mas, sobretudo, com o direito que adquiriram de abolir o tempo. 

Concepto Espacial Espera, Tela rasgada sobre tela - Lucio Fontana - 1959

Naquele sentindo, as grandes obras acabam funcionando como um grande buraco negro que retira do pintor de fim de semana, daqueles sem grandes pretensões e dos que pretendem uma significação cultural e artística para sua "obra" as possibilidades de seguir os mesmos caminhos sem cair no vazio.

A Noiva Despida Pelos Seus Celibatários
Marcel Duchamp . 1915 - 1923

Há muitas alternativas para se sair desse impasse. Duas delas são pares perfeitos e extremos. Uma diz respeito a fingir que nada disso importa e seguir pintando como se fosse um debutante nas cavernas, o que pode não garantir a sua inserção no círculo dos grandes e realmente importantes e fundamentais criadores, conduzindo-o muitas vezes ao reino do despeito. A outra, é descobrir e avaliar os encantos da funesta e arregimentar os meios de com seus trapos, ruínas e incoerências estabelecer um diálogo corajoso com todas as suas impossibilidades e se possibilitar como pintor, que, assim, jamais terá motivos para esconder o garbo de realizar um grande e belo desfile de mãos dadas com sua bela noiva cadáver em uma ensolarada tarde de domingo.  





sábado, 28 de março de 2015

Onde “O mau é bom e o bem cruel”



Em função de ter recebido uma notificação sobre o projeto Fale Com A Gente do Governo do Estado do Rio de Janeiro em São Gonçalo, envolvendo a Secretaria de Cultura, entrei em contato com a mesma, buscando entender como funcionaria o atendimento à população e saber por quais demandas a SEC tinha expectativas. Neste tipo de evento em uma cidade onde impera o total abandono não se pode ter a ilusão de que de repente todas as carências serão avaliadas de modo consequente, tanto quanto ninguém deve comparecer obedecendo a convocação sem avaliar que isso possui um alto teor de simples legitimização  da ação do governo junto à opinião pública.

É a partir do nosso histórico local e da informação que obtive que passo a fazer algumas considerações sobre a proposta do encontro.


Disse-me uma funcionária que o objetivo da SEC era tirar dúvidas relacionadas à cultura. Ora, em São Gonçalo não há dúvidas. Há apenas a certeza de que carecemos de tudo, e qualquer tentativa, bem ou mal intencionada, de mascarar este fato, apenas torna a nossa situação mais patética.

O Estado, através da SEC, precisa entrar em São Gonçalo e nos legar aparelhos culturais, incentivar e permitir, como faz, sobretudo na cidade do Rio, que as pessoas das áreas afins promovam, de diversas outras formas, o desenvolvimento cultural e artístico do lugar.

Recentemente, tivemos aqui o caso do Fórum antigo, que foi alvo de reivindicações da classe artística, mas que acabou sendo entregue à Câmara Municipal para ser transformada na nova casa dos vereadores; decisão do Governador Pezão a partir de reivindicação e negociação feita diretamente com ele, conforme foi anunciado.

Em relação àquele fato, o atual presidente da referida Câmara Municipal afirmou que utilizou sua influência política, sua "articulação para conseguir a vitória”, uma vitória sobre parte da população que pedia que o prédio fosse transformado em um local de cultura e arte. Em seus comentários sobre o resultado da disputa, o vereador sequer problematizou a situação cultural histórica de nossa cidade. Isso facilmente remete á uma famosa frase que diz: “Só há uma coisa pior que perder uma guerra. É vencê-la.”

É difícil perceber ou aceitar que já estava na hora da cidade ter um aparelho cultural para que aqui se iniciasse uma virada nesta insuportável e covarde situação instaurada por todos os poderes neste lugar? Pense na Cidade/Sede da Secretaria de cultura do estado e se verá o tamanho da covardia que se comete contra esta população.


Mário Candido sobre Foto de Alex Ramos, Jornal O São Gonçalo

O caso do Fórum é clássico porque até quem não defendia que o mesmo tivesse o fim que teve preconizava para o mesmo um bem muito duvidoso. Exemplo de Graça Mattos, que expressou uma opinião bastante peculiar sobre o caso, demonstrando uma velha tendência na maioria quando o assunto é a cidade de São Gonçalo. Para a deputada, o prédio deveria ser transformado em Escola Técnica, na qual haveria cursos “técnicos em cinema e hotelaria”; é a velha máxima da profissionalização. É evidente que isso também é uma necessidade neste município, mas perder a oportunidade de utilizar um prédio daquele, com aquela localização, para corajosamente permitir que a arte se instaure com seu poder de transmutar almas com o ócio criativo ainda é um tabu para muitos bem intencionados.  

Ora, que hábito estranho é este de pensar que aqui só existe este tipo de demanda? Os jovens formados pela tal escola seriam certamente trabalhadores nos hotéis de outras cidades ou estariam em filmes que não seriam feitos aqui, por gente daqui. Sabem por quê? Porque aqui se nega o sonho. Aqui se nega a um jovem o direito de entrar em uma sala de exibição de filmes numa tarde modorrenta e não sair dali com nenhum diploma debaixo do braço, mas com a alma renovada. Quem não acredita que a arte tenha este poder não deveria nem mesmo tratar do assunto. 



Que mania é essa de querer transformar todo gonçalense em mão de obra? Está na hora de apostar no sonho e permitir que todos as pessoas daqui possam ter em sua cidade outras formas de experiências. Fora isso, nada. Dúvidas sobre Pontos de Cultura... na cidade? Dúvidas sobre editais de cultura, com participantes da cidade? Nada disso aqui, se existe, faz a menor diferença. É um erro querer fazer de conta que temos uma vida cultural no mesmo modelo que se anuncia por aí. É importante assumir nossa total falta. Do contrário, camufla-se nosso abandono e desespero.

O que a SEC precisa fazer com relação a cultura em São Gonçalo é iniciar o investimento moral, subjetivo, que tenham desdobramentos econômicos que possam, de fato, nos legar a oportunidade de desenvolvermos nossa forma de ação no mundo.


Pode-se resumir tudo isso, pedindo ao Sr. Pezão que inaugure o período no qual um governador, de fato, governe o Estado e não apenas uma única cidade.

                   

sexta-feira, 27 de junho de 2014

REFAZENDA


Instalação Refazenda - 2014 - Imagem de Tarsila Monteiro-  Varanda Frontal.
 Entre os vãos, as unidades de nossa Instalação.
Uma aproximação entre o vocábulo refazenda, retirado da emblemática música de mesmo nome, de Gilberto Gil, com uma atividade que envolve, de fato, uma fazenda real, poderia se perder no risco do anedotário. Entretanto, em nenhum momento o Grupo CÁFAROartesvisuais se deixou levar por este temor, pois afinal, a direta relação entre aquelas palavras é o que de menos importante há na conceituação de nossa proposta.

Se de modo geral o movimento de Ocupação da Fazenda Colubandê almeja sua reutilização em sua dimensão cultural, artística, patrimonial e social, o que se impõe é a ideia da renovação, expressa no sentido do reverdejar, do renascer, estabelecidos em ciclos como na canção que nos serviu de referência inicial.

Ainda assim, é evidente que toda imagem que se busca estabelecer aqui é facilmente sintetizada pela ideia do Refazer, mas se fossemos ceder á esta potência, poderíamos, ou antes, deveríamos tratar nossa problemática somente recorrendo à grandeza consagrada no discurso imagético já estabelecido por outro criador na sua obra musical.

Mas tampouco trata o nosso trabalho de uma transferência de sentidos, um exercício de transitar da música para as artes visuais. Sentimos nós o mesmo drama da relação com o tempo, da espera, do desejo, do incômodo de ter que acatar os atos, de estar sob as imposições históricas, econômicas, sociais e políticas que alijam nossa cidade do panorama de também usufruir do acúmulo de conhecimento, em conjunto com o aparelhamento, que permeiam a vida cultural de outros grandes centros.


Instalação Refazenda - 2014
Imagem:Tarsila Monteiro
Instalação Refazenda - 2014
Imagem:Tarsila Monteiro
Instalação Refazenda - 2014
Imagem:Tarsila Monteiro
         
Sendo assim, o que se estabelece aqui é a nossa Refazenda, o nosso renovar, que se aguarda no tempo, mas não como esperança vã, aquela ingenuamente subentendida no próprio ato de se estar em esperança; antes na certeza de estabelecer a lógica, ainda que absurda socialmente, de que quem espera, espera o que vem. Se o tempo impõe que se espere, é certo que ele traz o que promete.


“Abacateiro, acataremos o teu ato, nós também somos do mato como o pato e o leão. Aguardaremos, brincaremos no regato, até que nos tragam frutos teu amor, teu coração”.



Mário César Candido Vieira

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Deleuze e o Moquém de alguns Bispos Sardinhas em São Gonçalo



É provável que muitos consideram que os fatos que se restringiram ao período das eleições 2012 em São Gonçalo já façam parte apenas do  passado e desse modo não devem mais despertar algum interesse, mesmo que sejam memoráveis. Mas justamente uma das coisas que falta a esta nossa sociedade é ter o hábito de tratar do que é memorável e discutir nossas questões sociais e políticas sempre. Isso equivale a olhar acontecimentos ocorridos com certo distanciamento e reelaborá-los. É possível que seja verdadeira a proposição que diz não haver fatos e sim interpretações de fatos.

Deste modo, sequer proponho uma reflexão sobre as consequências diretas ou indiretas do resultado das eleições nestes quatro meses do novo mandatário. Quero pensar apenas no fato momentâneo e seguir a trilha de alguns acontecimentos no processo de toda a campanha eleitoral e que tratam de uma questão tão cara a nós gonçalenses que é a nossa identidade como povo.


Duas Moedas, Duas Faces - Arte Digital - 2012 - Mário Candido


A suposta falta de identidade do povo deste lugar tem sido a aposta de muitos, para o bem e para o mal, por mais que isso permaneça sempre oculto, não explicitado nos seus discursos. Mas no caso da última eleição, esta foi também uma questão que esteve na base, talvez de modo imperceptível, da decisão em favor de Neilton, ainda que  o atual prefeito tenha passado longe de discutir isso conscientemente; bastaram alguns sinais.

A ideia de que nesses períodos em nossa cidade se evoca, mesmo que inconscientemente, o tema identidade, pode ficar clara se pensarmos, por exemplo, no comportamento e discursos dos candidatos àquela época, onde os parâmetros extremos teriam sido a assepsia total no discurso tecnocrata de Mauro Sérgio, supondo que dava para reduzir a complexidade de nosso município a um "case" administrativo e a ideia de neocolonialismo proposto por Alice Tamborindeguy no seu discurso "colcha de retalhos", captando aqui e e ali, através do qual ela forjou uma capacidade de fazer reflexões sérias sobre a enredada cidade de São Gonçalo, tentando ter como modelo de "civilização" a cidade do Rio de janeiro. Aliás, no quesito da manipulação da imagem técnica, assunto cada vez mais urgente em todo o planeta, ela foi a campeã. 

Sua tentativa de apoiar-se na celebridade inócua de sua irmã, Narcisa Tamborindeguy, trazendo-a em um desfile pelo bairro do Alcântara demonstrou uma estranha relação.  Aquela caminhada e toda funesta tentativa de conseguir votos através desse tipo de fama, para mim, deixava claro qual era a visão da candidata Alice a respeito do povo desse município, pois esperar ter crédito junto a este a partir do apoio de uma celebridade tão pouco levada à sério representava uma visão torpe a respeito deste mesmo povo. Daquela forma, estava criado um nó sociológico; ela esperava ser prefeita de um povo do qual teve, em momento inoportuno, uma pobre perspectiva. Aquele cortejo teve ares de um verdadeiro pesadelo conceitual. 

Tudo reforçava a visão de que ela considerava estar trazendo para nossa cidade algo que julgou que nos faltasse. Aquele desfile foi tão somente uma mostra de como seria dali para frente toda sua campanha, e a confirmação veio na constatação de que o mesmo raciocínio estava presente, como máximo exemplo, nas imagens escolhidas para seu programa que gritavam nas entrelinhas: "estamos vindo de um lugar melhor. Vamos salva-los!". Ou não seria esse o significado da abertura de sua campanha televisiva começar com uma  tomada aérea vindo da cidade do Rio de Janeiro através da Ponte Rio-Niterói, chegando na terrinha? Isso nos deveria fazer lembrar de alguns fatos bem familiares.

Minha avaliação foi apenas a partir da imagem que me foi e é dada a julgar, a imagem midiática explorada por Alice. Passei bem longe da questão pessoal, pois Independente da intenção que ela alegou ter tido quando minhas opiniões sobre o fato despertaram outras avaliações no facebook, o que parecia estar  em jogo era uma aposta na força de uma "Famosa", mesmo tratando-se de uma celebridade de influência um tanto quanto duvidosa. Não foram válidos os argumentos de Alice de que se atacava sua família.


Arte Digital - 2012 - Mário Candido

E o que dizer da opinião de um defensor das irmãs que se manifestou naquela celeuma na rede social, aumentando o drama (ou a farsa), que feito um senhor do além-mar - quem sabe depois que lhe gritaram: "terra à vista!" - fez o seu proclama: "Não ligue, Alice, pois as pessoas que falam mal da Narcisa é porque sentem inveja de sua alegria. Não querem que ela vá à São Gonçalo ensinar os gonçalenses a serem felizes." Ainda que pese o fato de que não se falava mal da pessoa, podemos pasmar, pois afinal foi decretado que somos mais de um milhão de habitantes necessitando de lições de felicidades da senhorita Narcisa Tamborindeguy. 

Forçando além do enjoo, reforcemos o patenteado e óbvio tom neocolonialista que de imediato me transportou direto à beira da praia da qual eu via aproximarem-se as novas caravelas que se metamorfoseavam em helicópteros, sendo um deles o mesmo que gravou a abertura da campanha da Alice; estas estranhas naus adentram as nossas praias e desembarcam novos missionários para a catequese de nosso gentil. Não sem antes encontrar apoio local.

Mas esqueceram-se eles todos e, sobretudo aquele desafortunado, que estaremos sempre prontos a devorar os Bispos Sardinhas e fazermos nosso carnaval, aliás, como melhor nos cabe, nossa carnavália.


A Carnavália - Mário Candido - Grafite e lápis de cor s/ papel- 1988



Mas não foi tudo. O arsenal de estranhas, patéticas e perigosas visões sobre o povo gonçalense foi engrossado após o resultado que consagrou Neilton Mulim. Houve, entre os próprios da terra, quem indagasse a respeito de "que gonçalenses são estes que deram esta ou aquela resposta ao grupo derrotado? Um povo que já perdeu a sua identidade!" Assim bradava um descontente num reflexo evidente do enorme sentimento de perda e de revolta, representando boa parte da aristocracia gonçalense. Sim, ela existe, sem dinheiro, mas altamente tradicional, como altamente tradicional é a cidade de São Gonçalo em sua patética pobreza.

Não querem ver, ora, pois, que o fato de haver sim uma crise de identidade do povo gonçalense - quiçá uma falta de afirmação desta - não significa que ela não exista. Seguem sem querer enxergar que a prova de sua pertinência é justo seu modo flutuante e paradoxal, como são todas as identidades legítimas; e mesmo que não afirmada, não significa que um povo em alguma hora não encontre um ponto por onde consiga contemplar os seus próprios rostos em um lapso no tempo e no espaço, como de fato foi o que ocorreu. 


Mulher ao Espelho - Pablo Picasso - 1932



Com isso, quase nada mais a dizer que não seja um viva ao povo gonçalense, que de toda e qualquer forma mudou um curso que parecia tão certo. Isso já é muito. E ai dos infelizes e desavisados que estiveram remoendo suas dores, aguardando tudo dar errado com o novo governo para fazerem ver que de nada adiantou... são vãos! Desconhecem que fatos como aquele não são históricos, não são consequentes, não desembocarão em nada, e esta é a sua glória; eles são o que são, sem tempo e sem espaço, sem finalidade; é uma pedra fincada no meio do nada, da qual mal sabemos alguns significados. 


E deveríamos todos comemorar, pois estamos todos nesta verdadeira proposição Deleuziana, incluindo os que momentaneamente foram derrotados em sua  forma  de ver o mundo ou uma pequeníssima parte dele. E neste momento Deleuze saboreia conosco um legítimo moquém de alguns Bispos Sardinhas.


Do Livro Hans Stadem


Nosso outro convidado para o belo moquém, Peter Pál Pelbart, entre uma mordida e outra, nos diz sobre o pensamento deleuziano: "O Devir é aquilo que escapa à História, que dela desvia: é o acontecimento, o intempestivo, a Criação."

Será Neilton Mulim um futuro Bispo Sardinha? Caso isso se confirme, facilmente se lhe o descola do resultado da eleição, pois seguindo nesta trilha cuja guia é a identidade, fique claro que, aconteça o que acontecer com o novo governo, o desfecho da votação pertenceu ao povo desta cidade, não devendo, não podendo ser dividido nem com o perdedor, muito menos com o vencedor do pleito ou quaisquer outros. Compreender isso seria um grande passo para a população gonçalense e para aqueles que, não sendo daqui, se interessam por este pedaço do Brasil.

sábado, 27 de outubro de 2012

São Gonçalo e os Prefeitáveis 

ou
A Ilusão de Fasltaff

O debate na OAB no último dia 22, entre Neilton Mulim e Adolfo Konder, candidatos a prefeito de São Gonçalo, evidenciou que o segundo turno fez muito bem a nossa cidade e que teria sido mesmo uma imoralidade cívica qualquer um dos candidatos ter ganho esta eleição em primeiro turno; São Gonçalo não poderia ter se dado a este luxo, e com a nova oportunidade de aprofundar algumas questões, viu, de modo geral, sua vida política e social sair fortalecida com o evento.


Se não chegou a ser um debate histórico, fundamental, é verdade que a análise do encontro não pode se restringir totalmente a considerações gerais; houve pelo menos um momento de real destaque, com um tom um pouco mais arrojado para as reais necessidades políticas da cidade. Ao responder o questionamento de Konder a respeito de suas parcerias para o segundo turno, Neilton demonstrou ao menos que pode vir realmente a despertar para o novo paradigma de posicionamento que a população gonçalense precisa assumir, e que já vem sendo, ainda que bem inicialmente, cogitado por alguns outros setores de nossa sociedade.  

A Carnavália em São Gonçalo -  2005 - Mário Candido
 Pintura  do Acervo Bandeiras SG.
Em resumo, Neilton afirma que sua maior parceria foi com o povo gonçalense e não com personalidades políticas de destaque na vida brasileira; que a partir de janeiro de 2013, independente de quem seja o prefeito, os governos estaduais e federais apresentarão toda sua dignidade, responsabilidade e maturidade, tratando nossa cidade com o destaque que ela merece em função de ser a décima quarta em população no país.

Mas nada é tão maravilhoso assim. A pergunta de Adolfo - perfeita para que ele, no momento da réplica, fizesse a sua ladainha sobre suas parcerias - e a resposta de Neilton demonstram a visão dos dois sobre o povo gonçalense, sendo uma a visão do conformismo e a outra a da situação que ainda não é tão natural quanto quer parecer. De positivo, ambas oportunizam os gonçalenses a se questionarem sobre que papel querem desempenhar daqui para frente. 

As opções são o papel que se expressa no falacioso, ingênuo e pretensioso discurso de Adolfo ao se apresentar como detentor de privilégios por uma aproximação especial com os governos estadual e federal, ou o papel de ter que aprofundar mais nos motivos pelos quais a cidade de São Gonçalo jamais contou com a dignidade e a responsabilidade dessas esferas, como quer Neilton. Afinal, por que o preconizado por Mulim já não é uma realidade, se São Gonçalo já tem uma grande população há muito tempo e sempre foi fundamental nas eleições para governador? Isso faz com que sua ideia não possa ser encarada como naturalmente verdadeira, ainda que seja a que devemos fazer acontecer através do reconhecimento da necessidade dessa verdadeira pauta política.


Tanto na esperança de grandeza expressa por Neilton quanto na falácia de que "somos todos iguais essa noite" expressa por Adolfo, aquela pauta política será, sim, muito necessária para uma real transformação da cidade, senão, ficaremos na mesma. E os dois candidatos, a partir de seus pontos de vista, precisariam de muita firmeza no estabelecimento daquela pauta. 

A diferença é que, no caso de Adolfo, ele já assumiu uma posição submissa demais, altamente desnecessária, e parece mais distante disso. Os dois candidatos deveriam ter consciência de que nada garante que São Gonçalo não voltará a ser tratada como sempre, cumprindo um papel de especial provedora de votos para o Governo do Estado, sendo esquecida em seguida. 



O que Adolfo está fazendo é nos conclamar a sermos pacíficos demais, resignados e ordeiros e assim, com a ajuda e a misericórdia dos que se dignaram a olhar esta terra de uma hora para outra, entrarmos nesta onda desenvolvimentista, a mesma que já não é mais um conceito tão absoluto como há algum tempo atrás. Momento, aliás, muito especial para que reflitamos sobre qual modelo de desenvolvimento queremos; temos chance disso, pois estamos praticamente saindo do osso. São Gonçalo é praticamente um grande caso de Friches Urbaines.

Fórum Velho - São Gonçalo

Essa pauta política, da qual Adolfo se afasta, chamando-a de picuinha, como faz Eduardo Paes, também ingênua e pretensiosamente, no Rio, nos é altamente necessária, pois precisamos desaprender algumas lições. Quem nos ensinou a andar de cabeça baixa? Quem nos ensinou a receber candidatos a governador do estado ávidos por votos, que depois de eleitos portaram-se sempre como segundos (ou primeiros) prefeitos da cidade do Rio de janeiro, sem nada ou quase nada reivindicarmos? 

Toda essa situação precisa mudar e podemos começar com a certeza de que a política de São Gonçalo não é a mesma que a do Rio, portanto o discurso de Adolfo de que um possível posicionamento mais exigente representa um racha, não convence a quem conhece de verdade esta cidade. É preciso inaugurar de modo mais firme um tempo de consciência do valor que este povo tem. Não podemos acreditar na propaganda de que basta ficarmos tranquilos, sem refletir e sem se posicionar porque somos amigo do rei ou do príncipe.


No filme Falstaff, de Orson Welles, o jovem príncipe vivia na companhia de fasltaff - um plebeu. Quando chegou o momento de assumir o trono da Inglaterra, lembrou-se que era Henry IV e percebeu que aquela companhia não ficava bem para um rei. E foi assim que Fasltaff morreu sozinho e pobre. 


Mário Candido

sábado, 22 de setembro de 2012

Por uma vida civil em São Gonçalo


Como afirma Paulo Sérgio Pinheiro, sociedade civil é um conceito cada vez mais usado na teoria política contemporânea, embora ainda permaneça bastante obscuro. Some-se a isso o fato de que hoje sua  conceituação não é apenas diversa, mas também contraditória, alimentada por um processo de mudanças que ocorreu em sua definição ao longo do tempo. 

Para que se tenha uma ideia do nível de contradição, basta observar que a noção de sociedade civil nasceu como sinônimo do próprio Estado, em oposição ao "estado de natureza". Seria, pois, o reino do que era legal, civil, civilizado, frente a natureza libertária. Demonstrando uma  preocupação com esses aspectos que precisavam ser renegados através de um pacto, Rousseau lembrava que "o acordo entre os animais é natural. O acordo entre os homens é artificial". Era preciso, então, criar esse artifício.

Hoje, apesar de haver algumas variações entre as quatro correntes mais influentes, toma-se  basicamente o conceito de sociedade civil como aquilo que não é o Estado, sendo o contrário deste. 

Mas o que nos interessa diretamente aqui, quando pretendo demonstrar a necessidade de que haja um fortalecimento, quiçá uma inauguração de uma vida civil em São Gonçalo, diz respeito a avaliar até que ponto as nossas organizações realmente se diferenciam da noção de Estado; até que ponto conseguem produzir valores e conteúdos civis que não se remetam diretamente àquele ou a uma velada vontade de se transformar no mesmo. 

É inegável que em São Gonçalo, devido a fraca vida civil, a prefeitura tenha um poder centralizador e um destaque demasiado, mesmo em sua profunda e histórica inoperância na organização de nossa sociedade geopolítica. Assim como o cidadão é convocado a participar de sua própria vida pública apenas quando a mesma deseja ou nos encontros marcados, como nesse momento de campanhas eleitorais; e todo este quadro acaba exercendo um grande poder de atração. Ainda que seja comum dizer-se o mesmo sobre toda a sociedade brasileira, é certo que aqui em nossa cidade estejamos em uma maior defasagem no nível de real participação. 

Os mais exaltados militantes costumam discordar dessa falta que aponto, dizendo que seus partidos, sim, discutem e produzem ideias sobre São Gonçalo. Mas, ora, se isso não é divulgado, se não é transformado em material que reproduza novas e constantes discussões sobre a cidade em outros meios que não o do próprio partido ou afins, não tem validade alguma. E, na verdade, a questão está longe de se resumir a partidos políticos, que merecem um estudo à parte, pois são tão somente uma parte e, quase sempre, reproduzem um comportamento estatal. 

Até que ponto partidos em São Gonçalo tem consciência de que muitas vezes é imperativo dar voz e vez às inciativas de cidadãos que não comungam com suas visões partidas, como real contribuição a democracia? Até que ponto admitem que realmente exista uma vida muitas vezes mais interessante fora de seus quadros? Neste aspecto, o que denuncio é que existe em São Gonçalo, como traço cultural, um pensamento-matriz estatal e não um pensamento-matriz civil que a tudo permeia. A Prefeitura, por exemplo, já demonstrou que mal considera que existam iniciativas que possam ser reconhecidas se não nascem de seus quadros ou de alguma instituição civil que esteja em profundo conluio consigo.  

Daqui, de toda e qualquer forma, continuo a pensar em uma vida realmente civil para São Gonçalo. Que se crie uma visão crítica sobre o tema e que se produza realmente valores um pouco mais independentes, ainda que se reconheça o valor do estado, cobrando que este realmente faça a sua parte. 

Mário Candido 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O homem não tem nenhuma experiência direta com nada; tudo é sempre mediado pelo simbólico. Se isso é válido na individualidade, coletivamente ocorre o mesmo. 

Tratando-se da identidade de uma unidade geopolítica - seja em que nível for- o que falta, por exemplo, a cidade de São Gonçalo é uma produção consciente de aspectos simbólicos sobre si mesma que possa mediar o seu estar no mundo; nenhum lugar consegue fugir dessa exigência, ainda mais uma cidade com suas dimensões e com uma população acima de 1milhão de pessoas.  

A arte e a cultura são as melhores maneiras, se não as únicas, de se construir esse processo. Pode haver crescimento de várias ordens em São Gonçalo, mas enquanto não houver uma apropriação da cidade pelo aspecto simbólico, nada mudará realmente. Este lugar está vago; não são políticos ou administradores que tem condições de realizar isso.

Nesse sentido, a afirmação de que a população precisa sinalizar para a classe politica desenvolver, não procede. Nós não estamos aqui para avisar, estamos aqui para realizar.

Objeto1- Colagem e pintura s/cadeira - 2010- Mário Candido
Mário Candido