O erro aceitável de Hitchcock
É bastante comum vermos o público incensando Festim Diabólico, 1948, de Alfred Hitchcock por sua tão propalada ousadia de fazer um filme inteiro praticamente em um único planossequência. Digo praticamente porque, na verdade, há os cortes motivados única e exclusivamente pela troca dos rolos que, na época, não ultrapassavam dez (10) minutos. Ocorre que a edição foi feita, e de modo magistral, para dar a sensação de que não há cortes - vemos apenas um mais abrupto, em um momento no qual o personagem Brandon (Jonh Dall) está ao piano.
Entretanto, o que muitos não comentam é que mais tarde o próprio Hitchcock renegou sua empreitada, dizendo que ela ia contra todas as suas convicções com relação a decupagem. Ele havia sido motivado pela montagem da peça de Patrick Hamilton, de 1929, que abria a cortina no começo e fechava uma única vez no final; quis ele então ver como isso funcionaria no cinema.
Nada disso retira a grandeza da obra, que aliás, recomendo. Mas serve para mostrar como pensava um diretor que trabalhava muito e refletia mais ainda, ao, de certa forma, contestar suas intenções e genialidades. Isso é um luxo; essa dele querer retirar um pouco a grandeza de seu achado. Sabendo que tinha muito para gastar, o diretor não precisava ficar se agarrando desesperadamente a um de seus lances de gênio. Deixa o queixo caído com a gente.
Consta ainda sua afirmação feita a Truffaut de que Festim Diabólico foi um erro aceitável, enquanto sua insistência no modelo em algumas cenas de Sob o signo de Capricórnio,1949, teria sido um erro imperdoável. Ao que Truffaut teria respondido que quase sempre os cineastas são obrigados em algum momento a retomar o elogio da montagem clássica Griffthiana.
Mário César Candido Vieira


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