Por uma vida civil em São Gonçalo
Como afirma Paulo Sérgio Pinheiro, sociedade civil é um conceito cada vez mais usado na teoria política contemporânea, embora ainda permaneça bastante obscuro. Some-se a isso o fato de que hoje sua conceituação não é apenas diversa, mas também contraditória, alimentada por um processo de mudanças que ocorreu em sua definição ao longo do tempo.
Para que se tenha uma ideia do nível de contradição, basta observar que a noção de sociedade civil nasceu como sinônimo do próprio Estado, em oposição ao "estado de natureza". Seria, pois, o reino do que era legal, civil, civilizado, frente a natureza libertária. Demonstrando uma preocupação com esses aspectos que precisavam ser renegados através de um pacto, Rousseau lembrava que "o acordo entre os animais é natural. O acordo entre os homens é artificial". Era preciso, então, criar esse artifício.
Hoje, apesar de haver algumas variações entre as quatro correntes mais influentes, toma-se basicamente o conceito de sociedade civil como aquilo que não é o Estado, sendo o contrário deste.
Mas o que nos interessa diretamente aqui, quando pretendo demonstrar a necessidade de que haja um fortalecimento, quiçá uma inauguração de uma vida civil em São Gonçalo, diz respeito a avaliar até que ponto as nossas organizações realmente se diferenciam da noção de Estado; até que ponto conseguem produzir valores e conteúdos civis que não se remetam diretamente àquele ou a uma velada vontade de se transformar no mesmo.
É inegável que em São Gonçalo, devido a fraca vida civil, a prefeitura tenha um poder centralizador e um destaque demasiado, mesmo em sua profunda e histórica inoperância na organização de nossa sociedade geopolítica. Assim como o cidadão é convocado a participar de sua própria vida pública apenas quando a mesma deseja ou nos encontros marcados, como nesse momento de campanhas eleitorais; e todo este quadro acaba exercendo um grande poder de atração. Ainda que seja comum dizer-se o mesmo sobre toda a sociedade brasileira, é certo que aqui em nossa cidade estejamos em uma maior defasagem no nível de real participação.
Os mais exaltados militantes costumam discordar dessa falta que aponto, dizendo que seus partidos, sim, discutem e produzem ideias sobre São Gonçalo. Mas, ora, se isso não é divulgado, se não é transformado em material que reproduza novas e constantes discussões sobre a cidade em outros meios que não o do próprio partido ou afins, não tem validade alguma. E, na verdade, a questão está longe de se resumir a partidos políticos, que merecem um estudo à parte, pois são tão somente uma parte e, quase sempre, reproduzem um comportamento estatal.
Até que ponto partidos em São Gonçalo tem consciência de que muitas vezes é imperativo dar voz e vez às inciativas de cidadãos que não comungam com suas visões partidas, como real contribuição a democracia? Até que ponto admitem que realmente exista uma vida muitas vezes mais interessante fora de seus quadros? Neste aspecto, o que denuncio é que existe em São Gonçalo, como traço cultural, um pensamento-matriz estatal e não um pensamento-matriz civil que a tudo permeia. A Prefeitura, por exemplo, já demonstrou que mal considera que existam iniciativas que possam ser reconhecidas se não nascem de seus quadros ou de alguma instituição civil que esteja em profundo conluio consigo.
Daqui, de toda e qualquer forma, continuo a pensar em uma vida realmente civil para São Gonçalo. Que se crie uma visão crítica sobre o tema e que se produza realmente valores um pouco mais independentes, ainda que se reconheça o valor do estado, cobrando que este realmente faça a sua parte.

