Deleuze e o Moquém de alguns Bispos Sardinhas em São Gonçalo
É provável que muitos consideram que os fatos que se restringiram ao período das eleições 2012 em São Gonçalo já façam parte apenas do passado e desse modo não devem mais despertar algum interesse, mesmo que sejam memoráveis. Mas justamente uma das coisas que falta a esta nossa sociedade é ter o hábito de tratar do que é memorável e discutir nossas questões sociais e políticas sempre. Isso equivale a olhar acontecimentos ocorridos com certo distanciamento e reelaborá-los. É possível que seja verdadeira a proposição que diz não haver fatos e sim interpretações de fatos.
Deste modo, sequer proponho uma reflexão sobre as consequências diretas ou indiretas do resultado das eleições nestes quatro meses do novo mandatário. Quero pensar apenas no fato momentâneo e seguir a trilha de alguns acontecimentos no processo de toda a campanha eleitoral e que tratam de uma questão tão cara a nós gonçalenses que é a nossa identidade como povo.
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| Duas Moedas, Duas Faces - Arte Digital - 2012 - Mário Candido |
A suposta falta de identidade do povo deste lugar tem sido a aposta de muitos, para o bem e para o mal, por mais que isso permaneça sempre oculto, não explicitado nos seus discursos. Mas no caso da última eleição, esta foi também uma questão que esteve na base, talvez de modo imperceptível, da decisão em favor de Neilton, ainda que o atual prefeito tenha passado longe de discutir isso conscientemente; bastaram alguns sinais.
A ideia de que nesses períodos em nossa cidade se evoca, mesmo que inconscientemente, o tema identidade, pode ficar clara se pensarmos, por exemplo, no comportamento e discursos dos candidatos àquela época, onde os parâmetros extremos teriam sido a assepsia total no discurso tecnocrata de Mauro Sérgio, supondo que dava para reduzir a complexidade de nosso município a um "case" administrativo e a ideia de neocolonialismo proposto por Alice Tamborindeguy no seu discurso "colcha de retalhos", captando aqui e e ali, através do qual ela forjou uma capacidade de fazer reflexões sérias sobre a enredada cidade de São Gonçalo, tentando ter como modelo de "civilização" a cidade do Rio de janeiro. Aliás, no quesito da manipulação da imagem técnica, assunto cada vez mais urgente em todo o planeta, ela foi a campeã.
Sua tentativa de apoiar-se na celebridade inócua de sua irmã, Narcisa Tamborindeguy, trazendo-a em um desfile pelo bairro do Alcântara demonstrou uma estranha relação. Aquela caminhada e toda funesta tentativa de conseguir votos através desse tipo de fama, para mim, deixava claro qual era a visão da candidata Alice a respeito do povo desse município, pois esperar ter crédito junto a este a partir do apoio de uma celebridade tão pouco levada à sério representava uma visão torpe a respeito deste mesmo povo. Daquela forma, estava criado um nó sociológico; ela esperava ser prefeita de um povo do qual teve, em momento inoportuno, uma pobre perspectiva. Aquele cortejo teve ares de um verdadeiro pesadelo conceitual.
Tudo reforçava a visão de que ela considerava estar trazendo para nossa cidade algo que julgou que nos faltasse. Aquele desfile foi tão somente uma mostra de como seria dali para frente toda sua campanha, e a confirmação veio na constatação de que o mesmo raciocínio estava presente, como máximo exemplo, nas imagens escolhidas para seu programa que gritavam nas entrelinhas: "estamos vindo de um lugar melhor. Vamos salva-los!". Ou não seria esse o significado da abertura de sua campanha televisiva começar com uma tomada aérea vindo da cidade do Rio de Janeiro através da Ponte Rio-Niterói, chegando na terrinha? Isso nos deveria fazer lembrar de alguns fatos bem familiares.
Minha avaliação foi apenas a partir da imagem que me foi e é dada a julgar, a imagem midiática explorada por Alice. Passei bem longe da questão pessoal, pois Independente da intenção que ela alegou ter tido quando minhas opiniões sobre o fato despertaram outras avaliações no facebook, o que parecia estar em jogo era uma aposta na força de uma "Famosa", mesmo tratando-se de uma celebridade de influência um tanto quanto duvidosa. Não foram válidos os argumentos de Alice de que se atacava sua família.
A ideia de que nesses períodos em nossa cidade se evoca, mesmo que inconscientemente, o tema identidade, pode ficar clara se pensarmos, por exemplo, no comportamento e discursos dos candidatos àquela época, onde os parâmetros extremos teriam sido a assepsia total no discurso tecnocrata de Mauro Sérgio, supondo que dava para reduzir a complexidade de nosso município a um "case" administrativo e a ideia de neocolonialismo proposto por Alice Tamborindeguy no seu discurso "colcha de retalhos", captando aqui e e ali, através do qual ela forjou uma capacidade de fazer reflexões sérias sobre a enredada cidade de São Gonçalo, tentando ter como modelo de "civilização" a cidade do Rio de janeiro. Aliás, no quesito da manipulação da imagem técnica, assunto cada vez mais urgente em todo o planeta, ela foi a campeã.
Sua tentativa de apoiar-se na celebridade inócua de sua irmã, Narcisa Tamborindeguy, trazendo-a em um desfile pelo bairro do Alcântara demonstrou uma estranha relação. Aquela caminhada e toda funesta tentativa de conseguir votos através desse tipo de fama, para mim, deixava claro qual era a visão da candidata Alice a respeito do povo desse município, pois esperar ter crédito junto a este a partir do apoio de uma celebridade tão pouco levada à sério representava uma visão torpe a respeito deste mesmo povo. Daquela forma, estava criado um nó sociológico; ela esperava ser prefeita de um povo do qual teve, em momento inoportuno, uma pobre perspectiva. Aquele cortejo teve ares de um verdadeiro pesadelo conceitual.
Tudo reforçava a visão de que ela considerava estar trazendo para nossa cidade algo que julgou que nos faltasse. Aquele desfile foi tão somente uma mostra de como seria dali para frente toda sua campanha, e a confirmação veio na constatação de que o mesmo raciocínio estava presente, como máximo exemplo, nas imagens escolhidas para seu programa que gritavam nas entrelinhas: "estamos vindo de um lugar melhor. Vamos salva-los!". Ou não seria esse o significado da abertura de sua campanha televisiva começar com uma tomada aérea vindo da cidade do Rio de Janeiro através da Ponte Rio-Niterói, chegando na terrinha? Isso nos deveria fazer lembrar de alguns fatos bem familiares.
Minha avaliação foi apenas a partir da imagem que me foi e é dada a julgar, a imagem midiática explorada por Alice. Passei bem longe da questão pessoal, pois Independente da intenção que ela alegou ter tido quando minhas opiniões sobre o fato despertaram outras avaliações no facebook, o que parecia estar em jogo era uma aposta na força de uma "Famosa", mesmo tratando-se de uma celebridade de influência um tanto quanto duvidosa. Não foram válidos os argumentos de Alice de que se atacava sua família.
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| Arte Digital - 2012 - Mário Candido |
E o que dizer da opinião de um defensor das irmãs que se manifestou naquela celeuma na rede social, aumentando o drama (ou a farsa), que feito um senhor do além-mar - quem sabe depois que lhe gritaram: "terra à vista!" - fez o seu proclama: "Não ligue, Alice, pois as pessoas que falam mal da Narcisa é porque sentem inveja de sua alegria. Não querem que ela vá à São Gonçalo ensinar os gonçalenses a serem felizes." Ainda que pese o fato de que não se falava mal da pessoa, podemos pasmar, pois afinal foi decretado que somos mais de um milhão de habitantes necessitando de lições de felicidades da senhorita Narcisa Tamborindeguy.
Forçando além do enjoo, reforcemos o patenteado e óbvio tom neocolonialista que de imediato me transportou direto à beira da praia da qual eu via aproximarem-se as novas caravelas que se metamorfoseavam em helicópteros, sendo um deles o mesmo que gravou a abertura da campanha da Alice; estas estranhas naus adentram as nossas praias e desembarcam novos missionários para a catequese de nosso gentil. Não sem antes encontrar apoio local.
Mas esqueceram-se eles todos e, sobretudo aquele desafortunado, que estaremos sempre prontos a devorar os Bispos Sardinhas e fazermos nosso carnaval, aliás, como melhor nos cabe, nossa carnavália.
Mas não foi tudo. O arsenal de estranhas, patéticas e perigosas visões sobre o povo gonçalense foi engrossado após o resultado que consagrou Neilton Mulim. Houve, entre os próprios da terra, quem indagasse a respeito de "que gonçalenses são estes que deram esta ou aquela resposta ao grupo derrotado? Um povo que já perdeu a sua identidade!" Assim bradava um descontente num reflexo evidente do enorme sentimento de perda e de revolta, representando boa parte da aristocracia gonçalense. Sim, ela existe, sem dinheiro, mas altamente tradicional, como altamente tradicional é a cidade de São Gonçalo em sua patética pobreza.
Não querem ver, ora, pois, que o fato de haver sim uma crise de identidade do povo gonçalense - quiçá uma falta de afirmação desta - não significa que ela não exista. Seguem sem querer enxergar que a prova de sua pertinência é justo seu modo flutuante e paradoxal, como são todas as identidades legítimas; e mesmo que não afirmada, não significa que um povo em alguma hora não encontre um ponto por onde consiga contemplar os seus próprios rostos em um lapso no tempo e no espaço, como de fato foi o que ocorreu.
Não querem ver, ora, pois, que o fato de haver sim uma crise de identidade do povo gonçalense - quiçá uma falta de afirmação desta - não significa que ela não exista. Seguem sem querer enxergar que a prova de sua pertinência é justo seu modo flutuante e paradoxal, como são todas as identidades legítimas; e mesmo que não afirmada, não significa que um povo em alguma hora não encontre um ponto por onde consiga contemplar os seus próprios rostos em um lapso no tempo e no espaço, como de fato foi o que ocorreu.
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| Mulher ao Espelho - Pablo Picasso - 1932 |
Com isso, quase nada mais a dizer que não seja um viva ao povo gonçalense, que de toda e qualquer forma mudou um curso que parecia tão certo. Isso já é muito. E ai dos infelizes e desavisados que estiveram remoendo suas dores, aguardando tudo dar errado com o novo governo para fazerem ver que de nada adiantou... são vãos! Desconhecem que fatos como aquele não são históricos, não são consequentes, não desembocarão em nada, e esta é a sua glória; eles são o que são, sem tempo e sem espaço, sem finalidade; é uma pedra fincada no meio do nada, da qual mal sabemos alguns significados.
E deveríamos todos comemorar, pois estamos todos nesta verdadeira proposição Deleuziana, incluindo os que momentaneamente foram derrotados em sua forma de ver o mundo ou uma pequeníssima parte dele. E neste momento Deleuze saboreia conosco um legítimo moquém de alguns Bispos Sardinhas.
Nosso outro convidado para o belo moquém, Peter Pál Pelbart, entre uma mordida e outra, nos diz sobre o pensamento deleuziano: "O Devir é aquilo que escapa à História, que dela desvia: é o acontecimento, o intempestivo, a Criação."
Será Neilton Mulim um futuro Bispo Sardinha? Caso isso se confirme, facilmente se lhe o descola do resultado da eleição, pois seguindo nesta trilha cuja guia é a identidade, fique claro que, aconteça o que acontecer com o novo governo, o desfecho da votação pertenceu ao povo desta cidade, não devendo, não podendo ser dividido nem com o perdedor, muito menos com o vencedor do pleito ou quaisquer outros. Compreender isso seria um grande passo para a população gonçalense e para aqueles que, não sendo daqui, se interessam por este pedaço do Brasil.
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| Do Livro Hans Stadem |
Nosso outro convidado para o belo moquém, Peter Pál Pelbart, entre uma mordida e outra, nos diz sobre o pensamento deleuziano: "O Devir é aquilo que escapa à História, que dela desvia: é o acontecimento, o intempestivo, a Criação."
Será Neilton Mulim um futuro Bispo Sardinha? Caso isso se confirme, facilmente se lhe o descola do resultado da eleição, pois seguindo nesta trilha cuja guia é a identidade, fique claro que, aconteça o que acontecer com o novo governo, o desfecho da votação pertenceu ao povo desta cidade, não devendo, não podendo ser dividido nem com o perdedor, muito menos com o vencedor do pleito ou quaisquer outros. Compreender isso seria um grande passo para a população gonçalense e para aqueles que, não sendo daqui, se interessam por este pedaço do Brasil.





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