Onde “O mau é bom e o bem cruel”
Em
função de ter recebido uma notificação sobre o projeto Fale Com A Gente do
Governo do Estado do Rio de Janeiro em São Gonçalo, envolvendo a Secretaria de Cultura, entrei em contato com a mesma, buscando entender como funcionaria o atendimento à
população e saber por quais demandas a SEC tinha expectativas. Neste tipo de
evento em uma cidade onde impera o total abandono não se pode ter a ilusão de que de repente todas as carências
serão avaliadas de modo consequente, tanto quanto ninguém deve
comparecer obedecendo a convocação sem avaliar que isso possui um alto teor de
simples legitimização da ação do governo
junto à opinião pública.
É a partir do nosso histórico local e da informação que obtive que passo a fazer algumas considerações sobre a proposta do encontro.
Disse-me uma funcionária que o objetivo da SEC era tirar dúvidas relacionadas à cultura. Ora, em São Gonçalo não há dúvidas. Há apenas a certeza de que carecemos de tudo, e qualquer tentativa, bem ou mal intencionada, de mascarar este fato, apenas torna a nossa situação mais patética.
O
Estado, através da SEC, precisa entrar em São Gonçalo e nos legar aparelhos
culturais, incentivar e permitir, como faz, sobretudo na cidade do Rio, que as
pessoas das áreas afins promovam, de diversas outras formas, o desenvolvimento cultural
e artístico do lugar.
Recentemente,
tivemos aqui o caso do Fórum antigo, que foi alvo de reivindicações da classe
artística, mas que acabou sendo entregue à Câmara Municipal para ser transformada
na nova casa dos vereadores; decisão do Governador Pezão a partir de
reivindicação e negociação feita diretamente com ele, conforme foi anunciado.
Em
relação àquele fato, o atual presidente da referida Câmara Municipal afirmou que utilizou sua influência política, sua "articulação
para conseguir a vitória”, uma vitória sobre parte da população que pedia que o
prédio fosse transformado em um local de cultura e arte. Em seus comentários sobre o resultado da disputa, o vereador sequer problematizou a situação cultural histórica de nossa cidade. Isso facilmente remete á uma famosa frase que diz: “Só há uma coisa pior que perder uma guerra. É vencê-la.”
É difícil perceber ou aceitar que já estava na hora da cidade ter um aparelho cultural para que aqui se
iniciasse uma virada nesta insuportável e covarde situação instaurada por todos
os poderes neste lugar? Pense na Cidade/Sede da Secretaria de cultura do estado
e se verá o tamanho da covardia que se comete contra esta população.
| Mário Candido sobre Foto de Alex Ramos, Jornal O São Gonçalo |
O caso do Fórum é clássico porque até quem não defendia que o mesmo tivesse o fim que teve preconizava para o mesmo um bem muito duvidoso. Exemplo de Graça Mattos, que expressou uma opinião bastante peculiar sobre o caso, demonstrando uma velha tendência na maioria quando o assunto é a cidade de São Gonçalo. Para a deputada, o prédio deveria ser transformado em Escola Técnica, na qual haveria cursos “técnicos em cinema e hotelaria”; é a velha máxima da profissionalização. É evidente que isso também é uma necessidade neste município, mas perder a oportunidade de utilizar um prédio daquele, com aquela localização, para corajosamente permitir que a arte se instaure com seu poder de transmutar almas com o ócio criativo ainda é um tabu para muitos bem intencionados.
Ora,
que hábito estranho é este de pensar que aqui só existe este tipo de demanda? Os jovens formados pela tal escola seriam certamente trabalhadores nos hotéis de outras cidades ou estariam em filmes
que não seriam feitos aqui, por gente daqui. Sabem por quê? Porque aqui se nega
o sonho. Aqui se nega a um jovem o direito de entrar em uma sala de exibição de
filmes numa tarde modorrenta e não sair dali com nenhum diploma debaixo do
braço, mas com a alma renovada. Quem não acredita que a arte tenha
este poder não deveria nem mesmo tratar do assunto.
Que
mania é essa de querer transformar todo gonçalense em mão de obra? Está na hora
de apostar no sonho e permitir que todos as pessoas daqui possam ter em sua
cidade outras formas de experiências. Fora isso, nada. Dúvidas sobre Pontos de
Cultura... na cidade? Dúvidas sobre editais de cultura, com participantes da
cidade? Nada disso aqui, se existe, faz a menor diferença. É um erro querer fazer de conta
que temos uma vida cultural no mesmo modelo que se anuncia por aí. É importante
assumir nossa total falta. Do contrário, camufla-se nosso abandono e desespero.
O
que a SEC precisa fazer com relação a cultura em São Gonçalo é iniciar o investimento
moral, subjetivo, que tenham desdobramentos econômicos que possam, de fato, nos
legar a oportunidade de desenvolvermos nossa forma de ação no
mundo.
Pode-se
resumir tudo isso, pedindo ao Sr. Pezão que inaugure o período no qual um governador, de fato, governe o
Estado e não apenas uma única cidade.



Excelente!!! Muito bom!!!
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